A identidade que Ancelotti ainda não encontrou [Brasil x Marrocos]

Aos 18 anos, El Chadaille Bitshiabu conduziu o ritmo de uma partida contra o Brasil como se estivesse em um treino de meio de semana. O dado, por si só, ajuda a explicar por que o empate por 1 a 1 com o Marrocos merece uma leitura mais cuidadosa do que a simples perda de dois pontos. Não foi o adversário que surpreendeu. Foi a seleção brasileira que permitiu ser surpreendida.

O problema não esteve no resultado, mas na facilidade com que o plano inicial de Carlo Ancelotti foi desmontado. A estrutura híbrida entre o 4-2-4 e o 4-4-2 esvaziou o meio-campo e ofereceu liberdade para a circulação marroquina. Brahim Díaz encontrou espaços entre as linhas com regularidade. O gol de Ismael Saibari tampouco surgiu do acaso. Foi consequência de uma sequência de perdas na saída de bola, hesitações defensivas e desorganização posicional que a proposta inicial não conseguiu prevenir.

Ancelotti corrigiu, e esse é o ponto que seus defensores destacarão com razão parcial. A reorganização em um 4-3-3 devolveu densidade ao setor central, reduziu os espaços concedidos e trouxe estabilidade à equipe. O Brasil melhorou porque abandonou a ideia original. O problema está justamente nessa constatação.

Grandes seleções precisam ser capazes de ajustar rotas ao longo de uma competição. Reagir bem é uma virtude. Depender sistematicamente da reação para encontrar equilíbrio, contudo, é um sintoma. Equipes maduras impõem perguntas desde o início. Não esperam que o adversário revele suas fragilidades para, só então, reorganizar as próprias convicções.

O segundo tempo reforçou essa impressão. Ao corrigir os desequilíbrios do meio-campo, o Brasil ganhou controle territorial, mas perdeu agressividade ofensiva. Rafinha atravessou os noventa minutos sem oferecer soluções consistentes. Endrick não foi acionado para alterar a dinâmica do ataque. A seleção passou a administrar melhor os espaços, mas continuou distante de desequilibrar com a intensidade que o talento disponível sugere ser possível.

A tendência é que o Brasil avance de fase. Haiti e Escócia não apresentam o mesmo nível de organização que o Marrocos demonstrou na estreia. A questão mais relevante é outra: saber se a evolução virá pela consolidação de uma identidade coletiva ou pela repetição de correções emergenciais. O mata-mata costuma punir com rigor equipes que ainda estão descobrindo quem são.

O desafio de Ancelotti, portanto, vai além da escolha entre sistemas ou da definição de titulares. Trata-se de construir uma seleção capaz de antecipar problemas, e não apenas responder a eles. Até aqui, o Brasil parece mais confortável reagindo ao jogo do que determinando seus termos. Em uma Copa do Mundo, essa diferença raramente passa despercebida quando os confrontos eliminatórios começam.